Estamos há mais de um ano de obras no casarão. Recontar uma história nova num espaço reconhecido por sua própria. 

Um casarão tombado no centro da cidade nos escolheu para escrever seus próximos anos juntos, a história é longa mas sim, ele que escolheu a Ervaria antes da Ervaria enfim aceitar essa jornada.

Não foi uma obra fácil, duvido que alguma seja, mas caminhamos para o fim. 

Na verdade caminhamos para o começo.

 Não deixar a fachada cair, mexer em toda a fundação, segurar algumas paredes, deixar desabar.

Não, eu não gosto de obras. Os gostos, os embates, os surtos. Muitos surtos.

Eu me perdi de mim por um bom tempo nesse último ano e foi esse mesmo espaço físico que me chamou de volta.

Tenho para mim que a vida volta e meia materializa nossos processos rumo aos nossos sonhos em passos grandiosos quase como um lembrete de que muito pouco controlamos da existência, mas se está a nossa frente, conseguiremos atravessar.

É de novo o próprio processo, junto de muita revisão, auto respeito (porque para viver bem é preciso aprender a dizer muito não) e também de frustração que é sempre um convite à percepção de que estamos tentando controlar demais o que é por natureza totalmente incontrolável: a vida.  

Acompanhando os ciclos do relógio, entendi que nem por um segundo a vida negocia a cadência de seu passo. O tempo é sagrado. E as construções (sejam elas externas ou internas), assim como tudo o que existe sob as leis da vida, levam tempo: o seu próprio tempo.

A nós sobra então o exercício amoroso de acolhimento de nossas urgências, expectativas e frustrações. O entendimento de que tudo, ou quase tudo, escapa por entre os dedos dos domínios de nosso controle, de nosso conforto e de nossas possibilidades de intervenção.

Talvez só não escape deles, afinal, a forma como escolhemos lidar com o que a vida nos apresenta. O exercício diário de observar como cada experiência nos toca, e o que isso diz sobre nossa habilidade de abrir o coração para o fluxo da existência.

Para mim, de aceitar que o casarão está tomando forma a seu próprio tempo, por muitas mãos e muitos esforços, em um exercício de entrega e paciência. 

Ao ver minhas expectativas desabarem mais de uma vez ao longo do caminho, percebi que o casarão se estruturava cada dia mais, ao seu ritmo, o que me inspira a seguir meu próprio tempo.

Confiar no fluxo em um ato de reverência, sabendo que quanto mais aceito seu passo, mais trago leveza à experiência de viver.

O mundo é sutil e a nós cabe soltar, aceitar e buscar encontrar os espaços internos onde a alma se acalma e a mente silencia.

Talvez a poesia de viver esteja em aprender a lançar os desejos à sabedoria imensa da vida, sem o apego às expectativas. Em compreender com o coração que, quão melhor reagimos aos acontecimentos, melhor a vida se dá. 

Em encontrar coragem para navegar com igual esperança por entre os períodos de luz e de escuridão, encarando o movimento das marés com fé na imensidão do oceano.